Temperamentos-Éteres

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O que vivenciamos físico-materialmente tem um “ser próprio” estranho em relação às qualidades e vivências espirituais.

O empenho da Antroposofia por um caminho de iniciação é levar o espiritual ao ser humano e do espiritual humano ao espiritual do universo (STEINER, GA- 26), portanto uma separação que só pode ser bem sucedida se o espiritual for vivenciado tão intensa e concretamente no plano material-físico e o espiritual seja liberado dele. Isto não pode ser apreendido pela consciência habitual, mas pela consciência no mundo etérico.

Quando perguntamos de onde surgem os pensamentos?

Todos os pensamentos nascem do mundo espiritual-etérico; sem o mundo espiritual- etérico os pensamentos não existiriam, eles emergem na nossa consciência como sombras, como pensamentos em nosso interior.

Do outro lado, temos o campo das percepções sensoriais através de nossos sentidos. Este mundo surge também do mundo espiritual e acerca-se do ser humano a partir de fora, mas não vem à consciência como um mundo vivo, ele aparece de forma esquemática; só apreendemos as percepções sensoriais, se elas estiverem ligadas a um objeto.

Assim, concluímos que não vivemos interiormente a realidade do pensar espiritual e nem exteriormente, a realidade do sensorial espiritual. Vivemos em uma divisão entre os esquemas dos pensamentos e as sombras das percepções sensoriais em relação à realidade espiritual. Para alcançarmos a realidade do mundo espiritual, temos que fazer um grande esforço, não recebemos, de graça as vivências do mundo espiritual, temos que ter uma disciplina e uma disposição interna para trilharmos o caminho do conhecimento da realidade espiritual.

Se, no exercitar, permanecermos somente no lado do pensar modelador, esquemático ou das percepções sensoriais, isto é das sombras, tenderemos a nos perder da realidade espiritual. Somente na consciência humana, elas estão separadas uma da outra. Quando houvermos alcançado um pensamento modelador ativo e vivo, este novo passo será acrescentado de percepções sensoriais puras.

O que é o pensamento modelador ativo e vivo e as percepções sensoriais puras?

Exemplos:

  • Meditação profunda - ao sentarmos num jardim, fechamos os olhos e conseguimos meditar profundamente. Nós perdemos a noção de onde estamos e, ao fim da meditação, o mundo circundante volta novamente, as folhas secas soam tempestuosamente para nós, isto por frações de segundos. O que ocorreu? Por um curto período de tempo vivenciamos a percepção sensorial sem a representação de esquemas, sem objetos. Com base nesta vivência, podemos julgar como a nossa percepção habitual está amortecida.
  • Eu adormeço, o lençol ao passar em meu corpo, é como um ruído tempestuoso. No limiar do dormir e do despertar, em que nos retiramos do nosso corpo, o esquemático desaparece, as ordenações das representações de objetos se dissipam, por isso, vivenciamos as impressões sensoriais muito mais intensamente. As crianças vivenciam isto, algumas se assustam, tem pesadelos, por não saberem do que se trata e é bem útil quando os adultos o sabem.

Portanto, temos uma divisão, de um lado, um ascender ao pensar modelador, esquemático, e do outro, o ascender das percepções sensoriais. Quando fortalecemos cada um destes, começamos um novo respirar. A cada passo que se avança no pensamento modelador fortalecido, amplia-se a aspiração das verdadeiras qualidades no mundo das percepções e vice-versa; e quando ambos começam a atuar conjuntamente, tem início um novo respirar, não de ar, mas entre o PENSAR VIVO e o PERCEBERSENSORIAL. Nesta vivência, o ser humano vivencia o mundo etérico, no próprio corpo etérico, mas inicialmente apenas como uma pequena ponta.

Quadrimembração do ser humano segundo a Antroposofia:

  • O corpo físico formado pelos elementos (terra, água, ar, fogo).
  • O corpo etérico, pelos éteres (vital, químico -sonoro, luminoso e calórico).
  • O corpo astral, pelos planetas e zodíaco.
  • Eu (enteléquia – Aristóteles – Goethe- o “Ser em ato”)

Temperamentos

Os temperamentos estão no corpo físico e etérico, por isto são mais difíceis de modificar.

O ser humano capta o mundo etérico através do éter vital, segundo Steiner, em uma ponta que está acima da cabeça. Esta ponta pode não surgir se não houver um fortalecimento do nosso corpo etérico.

Exercícios para fortalecimento do contato do corpo etérico com o mundo etérico:

1- Retrospectiva:

Estudo da biografia onde temos o pensar e o perceber. O que penso sobre a minha história de vida e o que percebo. Percorrer retrospectivamente a própria vida, situação por situação, nos dá visão panorâmica como um observador da própria história. A cada vez que um trecho da vida for elaborado, a pequena ponta pensar-perceber começa a crescer e torna-se maior e mais forte; quando não trabalhamos a nossa vida esta ponta torna-se pequena e desaparece.

2- Apreensão do organismo temporal:

Tudo o que acontece é o que é, não só pelo conteúdo momentâneo, mas pela posição no tempo. Em que lugar eu estou no decurso do dia e da noite? O que vem ao meu encontro? O que jaz atrás de mim? Estamos sempre dentro de pequenos e grandes círculos (dia, noite, mês, ano, etc). Com isto eu exercito o meu sentir. Quando nos encontramos desligados do tempo, surge o nervosismo. Quando o “eu” relaxa e não intervém no corpo astral, ele fica solto e interfere no corpo etérico, desvitalizando-nos, adoecendo-nos. O físico começa a se agitar e torna-se autônomo, adoecendo. Quando o corpo etérico é fortalecido, a partir da consciência do “eu” no nosso processo biográfico, a ponta etérica torna-se mais forte e expande-se.

3-Viver o corpo etérico em relação ao mundo etérico todo.

A nossa cabeça física em relação ao nosso organismo restante está separada pelo pescoço, mas existe uma relação com o restante do corpo, sem isto não poderíamos viver. O corpo etérico humano também é um pouco autônomo, mas tem relação com o mundo etérico inteiro. O etérico está na circunferência toda e atua a partir de lá para dentro. No mundo estelar também, quando despertamos no etérico, o pensar formativo e o perceber são vivificados. O “todo” está presente e viver no “todo” precisa ser exercitado conscientemente. Precisamos sentir-nos tanto dentro da periferia das estrelas (planetas e zodíaco), quanto dentro do próprio corpo etérico.

O corpo etérico nunca pode ser cogitado sem o “todo” do éter universal, no qual está assentado. Ele não é apenas um corpo físico mais tênue, mas está ligado indissolúvel e ininterruptamente ao éter universal, aquela esfera cósmica de atividade das entidades superiores. Mas nós alcançamos apenas uma ponta etérica na cabeça. Esta atividade em movimento vivo tem lugar no corpo etérico e no cérebro, e aí descobrimos que o cérebro e todas as representações normais são representações finais do grande éter universal. Cabeça, cérebro e representações são produtos encolhidos do éter universal.

Como vivenciamos isto?

De um lado, temos uma profunda veneração e devoção pelas poderosas forças cósmicas e pela sabedoria, que aflui a esta maravilhosa formação do cérebro, pois somente o cérebro nos dá a possibilidade para todas as representações.

Por outro lado, somos tomados por uma profunda tristeza por estarmos diante de um produto encolhido, um produto final, morto, que são as nossas representações mentais, oferecidas pelo nosso cérebro.

Qual a força etérica que consegue chegar até o físico?

É o éter vital, que dá vida ao físico, senão seríamos um aglomerado de elementos químicos. No cadáver, o éter vital é cortado. Os outros éteres (calor, luz e sonoro), não conseguem chegar até o físico.

Qual a relação do temperamento com os éteres?

O melancólico, que vive na cabeça, no pensar, tende a considerar o passado, gerando uma melancolia, aparece como uma disposição violeta azul na cabeça. Aí, atua apenas uma ponta do corpo etérico ligado ao físico, o éter vital.

O colérico que vive no futuro, nele encontramos um querer, uma vontade de ação, coragem e calor, e também, temos o éter calórico permeando o corpo todo, com maior intensidade nos membros. A cor vermelha apresenta com mais intensidade nos membros. Então na cabeça, podemos dizer que, penetram forças espirituais e nos membros emanam forças para o futuro, formando germes para o futuro.

Entre os dois polos, colérico e melancólico, apresenta o fleumático, o qual mergulha na atualidade, não tem interesse pelo passado ou pelo futuro adiante, volta-se para o que ocorre no momento. Nesta atuação do elemento do fluir, nas combinações químicas misturando e separando temos o verde, o éter sonoro ou éter químico, que vive no elemento aquoso.

Nesta região do meio, temos também o pulsar da respiração, o homem aéreo, com atuação para fora e para dentro, que vive no éter luz que resulta no temperamento sanguíneo, representado pelo amarelo.

Temperamentos

Éteres

Elementos

Melancólico

Vital

Terra

Colérico

Calórico

Fogo

Fleumático

Sonoro (químico)

Água

Sanguíneo

Luz

Ar

Estas quatro qualidades fundamentais no corpo etérico humano: o éter vital, que dá configuração criativa até ao plasmar a forma; o éter sonoro/químico, que tem esse fluxo de correntes; o éter do calor, querer orientado para o futuro e o éter luz manifestação da relação com o mundo, estão presentes como qualidades no grande éter universal. Na consciência humana, elas só surgem quando esse processo do pensar for fortalecido pela meditação ampliada, qualificando e harmonizando o nosso temperamento.

Temos duas tarefas com o nosso temperamento, sendo uma tarefa a consciência do temperamento, que temos em maior evidência e a outra é a capacidade de transformar e equilibrar os temperamentos, pois nós temos os quatro, sendo que um ou dois ficam em maior evidência.

Com o pensar vivificado do melancólico, o sentir livre de turvações do fleumático e um querer sensato do colérico, nós teremos um novo respirar do sanguíneo, este seria a transformação do temperamento que ajudará na metamorfose do “tempero humano”, isto é a mudança dessas quatro forças, de maneira a se tornar um ser verdadeiramente humano nas relações.

 

Referência bibliográfica:

1 – SMIT, Jörgen. O Ser Humano em Devir - aprofundamento meditativo do educar. Federação das Escolas Waldorf (FEW) – 2003;

2 – GLAS, Nobert e outros. Os quatro temperamentos - A face revela o homem;

3 – STEINER, Rudolf. Os mistérios dos Temperamentos – As bases anímicas do comportamento humano;