CASO CLÍNICO


CASO CLÍNICO

M. F. G, sexo feminino, nasceu em 26 de outubro 1949, Minas Gerais, mãe de quatro filhos, doméstica.
Foi encaminhada à minha clínica por uma colega psiquiatra com o diagnóstico de depressão.
Tinha queixa de dores articulares e musculares. Medicamentos em uso: Florais de Bach.
Ao entrar a paciente tinha um semblante triste e pesado, um aperto de mãos fraco, mãos frias e úmidas, não me olhava, desviava o olhar e falava baixo e com pouca articulação das palavras. Sentou-se timidamente e um pouco encurvada e segurava a bolsa com muita força de encontro ao peito. Disse que estava ali encaminhada pela sua psiquiatra. Desconhecia a Medicina Antroposófica. Sentia muitas dores musculares e articulares, fazia hidroginástica, mas pensava em parar, pois as dores pioravam muito após os exercícios, tinha dores fortes no estômago e boca amarga.
Perguntei o motivo que  ela estava com a psiquiatra,  respondeu que estava fazendo um tratamento para depressão, mas não era louca, apesar dos filhos e marido acharem que sim. Ela continuou o relato dizendo que tinha perdido o entusiasmo pela vida, tinha insônia e um aperto muito grande no peito.
Passei para o exame físico, o qual estava dentro do padrão de normalidade.
Ela trouxe exames laboratoriais feitos anteriormente, estavam normais.
História patológica pregressa: depressão, gastrite, artroses de MMII, hipertireoidismo.
Hipótese diagnóstica atual: depressão exógena.
Foi feita a conduta terapêutica e sugerido o trabalho biográfico.

2ª  consulta:
Houve melhora do quadro clínico e começara o trabalho biográfico de 15 em 15 dias.

3ª  consulta:
Resumo do primeiro setênio (0 – 7 anos):
Seus pais moravam com o avô paterno, que tinha uma pequena área rural de onde tiravam o sustento da família. Seu pai era expedicionário das Forças Armadas e sua mãe era doméstica. Na época de seu nascimento a mãe tinha 23 anos e seu pai 32 anos e era a terceira de sete irmãos.
Passou o seu primeiro setênio em uma casa simples no campo que não tinha jardim e sim horta, pomar, roça de milho, arroz, feijão, fumo, mata fechada, curral, chiqueiro e galinheiro.
“A minha infância foi quase mágica, desde bem pequena eu acompanhava meu avô para o curral onde tomava leite fresco bem espumante. Gostava de alimentar as criações com ele e me divertia milho jogando milho para os animais. Os bois recebiam milho cocho, as galinhas o milho debulhado, e para os porcos o milho debulhado era colocado de molho anteriormente”.
“A harmonia da natureza e a mudança das estações no campo eram muito marcadas e visíveis. O outono me lembrava tristeza e saudade. O inverno representava recolhimento, o dia custava mais a despontar. Na primavera a manifestação da natureza era de alegria, cores, as plantas se enchiam de flores, os pássaros ficavam alegres e cantantes. O verão era a liberdade, a leveza, a descontração e o sol mais vibrante”.
“Deus era o céu e a natureza. Tínhamos o hábito de rezar o terço em família, digo minha mãe e nós as filhas, pois meu pai sempre foi espírita. Quando eles se casaram fizeram o pacto de que os filhos seriam educados na fé da religião católica. O Deus da minha mãe era o Deus lá da Igreja de Padre João, um Deus bravo. Eu preferia o Deus da natureza. Minha mãe dizia: minha filha você tem que rezar muito porque você é muito levada. Ensinava também que Nossa Senhora é a mãe de Jesus e também nossa. Fui crescendo e logo associando que o Deus era um só e que as pessoas o viam diferente”.
“Sofria castigos e proibições, ouvia acusações injustas e não tinha o direito de falar”.
“Aos quatro anos de idade meu avô materno me trouxe para um centro maior onde fiquei internada durante três meses para uma cirurgia de amídalas, pois tinha infeções repetidas de ouvido e garganta. O meu avô e uma tia sempre me visitavam aos domingos. Meus pais não fizeram visitas  no hospital e isto me marcou muito”.

Cena 1: Feito em argila uma cena marcante do primeiro setênio.
Local: hall do hospital, ela assentada segurando um pacote de biscoitos de polvilho e laranjas. À sua direita uma imagem de Nossa Senhora e à esquerda a porta do elevador. Na frente o avô e a tia.
Sentimento: eram visitas feitas aos domingos, durante três meses. Ficava muito apreensiva na esperança de ser visitada por seus pais, porém eles nunca foram.

4ª  consulta:
Foi feito um conto “A Pipa e a Flor” – Rubens Alves – Ed. Paulus.
Houve melhora dos sintomas clínicos. A paciente sorria ao contar a biografia, estava mais solta e feliz. Os medicamentos foram mantidos. Fez o relato do segundo setênio.

Segundo setênio (7 – 14 anos):
Foi para uma escola estadual aos sete anos de idade em Piraúba. Morava na casa de sua tia paterna Diva. Era uma aluna desatenta, mais muito ativa, costumava brincar em sala de aula. Teve noções de religião, música, pintura, arte dramática, expressão corporal e relacionamento humano.
Durante a semana na casa de sua tia tinha as tarefas de varrer o quintal, carregar água para cozinhar e beber. Na casa não tinha água encanada, mas só uma bica que vinha de um ribeirão. Nos fins de semana tinha que cuidar de seus pertences, varrer o quintal que era muito grande, descascar e debulhar milho para durante toda a semana alimentar os porcos e as galinhas.
Estava ainda muito ligada à natureza. Certa vez seu pai passou uma tarefa de descascar e debulhar o milho, mas esta não foi cumprida, pois ela foi para o campo e perdeu a noção do tempo observando os pássaros. Gostava de descobrir os ninhos e observar como eles alimentavam os seus filhotes e os ensinavam a dar o primeiro voo e seguirem o seu próprio caminho. A sua mãe não deixou as irmãs fazerem a tarefa, quando seu pai chegou deu uma surra em todas com o relho. Então, depois do ocorrido, enterrou o relho no paiol para ninguém mais apanhar. O curioso é que sentia um certo prazer quando o seu pai batia. Gostava de vê-lo arrependido a pedir desculpas, pois era o momento em que ele se dirigia a ela.
“Certa vez, em uma época de colheita e fumo, minha mãe pegou uma empreitada para tirar talos da folha de fumo. Era uma tarefa bem paga pelos agricultores da região. Eu fiz mais do que minhas irmãs. Com o dinheiro adquirido minha mãe comprou um cordão de ouro para minhas irmãs e para ela, mas eu não ganhei. Ela me disse que se eu me tornasse caprichosa ela me daria o dela e até hoje não o recebi”.
A educação religiosa continuava sendo os ensinamentos da Igreja Católica Apostólica Romana, e o seu pai continuava espírita.
Participava da vida dos colonos ajudando-os nas tarefas pesadas como cortar lenha, cana e lavar roupa no ribeirão. Isto permitia uma alegre expansão de sua individualidade. Tinha uma preocupação com o social apesar de não ter idade para compreender.
Teve a menarca com onze anos, já tinha um corpinho de mocinha e passou ser mais vaidosa. Aos treze anos, a família foi para Juiz de Fora. Aos quatorze anos trabalhava fora de casa e o salário era entregue integralmente para mãe.
Cena 2:
Local: à margem de um rio que cortava a cidade, ficava observando as lavadeiras cantando ao lavar as roupas. Tinha crianças que se banhavam no rio. Ela ficava com os pés na água e brincava com uma vara.
Sentimento: era totalmente absorvida pelas atividades, sentia prazer e bem-estar no local.

5a consulta:
Terceiro setênio (14 – 21 anos):
O despertar sexual começou aos 12 anos se interessando por rapazes mais velhos.
Aos quatorze anos trabalhava em uma fábrica de sapatos como pespontadeira e estudava a noite. Começou a namorar e então o seu pai a fez escolher entre o estudo ou o namoro. Ela escolheu o namoro. Aos quinze anos ficou noiva. Dava uma parte do salário para a mãe e a outra parte fazia o enxoval. Trabalhar fora de casa dava-lhe a sensação de liberdade e de autonomia. Pensava em casar e construir família. Casou-se com dezoito anos. Levou como força positiva a possibilidade de construir uma família própria.

Cena 3:
Local: fábrica de sapatos onde costurava e arrematava o couro.
Sentimento: liberdade, capacidade de aprendizado.

6a consulta:
Quarto setênio (21 – 28 anos):
Não houve oportunidades para escolha de parceiro, o seu primeiro e único namorado é o seu marido e pai de seus filhos.
Após o casamento não estudava e nem trabalhava mais, apenas em casa. Pegava algumas costuras ou bordava enxoval de bebê. Estava totalmente dependente do marido. Só teve certa independência no período de 15 a 18 anos.

“Este período foi muito bonito e de muita realização como mulher. Engravidei do meu primeiro filho em 1971 após um longo tratamento de trompas obstruídas, e depois de Andréa em 1973. Eu me realizava com os papéis de dona de casa, de esposa devotada e de mãe educadora. Mas com o passar do tempo percebi que estava perdendo minha identidade. Quando meus dois primeiros filhos foram para o Jardim de Infância, senti um grande vazio, pois eles começaram a depender menos de mim. Procurei preencher o meu tempo, mas não sentia apoio do meu marido. Ele dizia que mulher dele seria para cuidar dele, dos filhos e da casa. Sempre fui religiosa, então comecei a participar de movimento religiosos, visitar doentes nos hospitais, mas tinha quer ser rápido, pois meu marido controlava a minhas saídas de casa e até para visitar minha mãe eu tinha que pedir sua permissão”.
Em 1976 sofreu um acidente de carro com a família. Até hoje culpa o marido por estar, no momento do acidente, discutindo com ela. A partir do acontecimento perdeu a confiança que tinha no marido. “A minha relação com ele sempre foi conflituosa, pois tem um gênio dominador e agressivo”. Começou a pensar em mudanças. Não queria ser mais uma boneca de porcelana e sim uma mulher de verdade.
Nesta época foi diagnosticado um hipertireoidismo que foi tratado em seguida.

Cena 4:
Local: maternidade
Sentimentos: grande alegria, preenchida pela maternidade.

7a consulta:
Quinto setênio (28 – 35 anos):
Em 1978 engravidou novamente, mas perdeu a gravidez após um resfriado muito forte. O fato a deixou muito deprimida e com um grande vazio.
Desejou ter mais filhos, mesmo contra a vontade de seu marido. Em 1979 engravidou e teve o seu terceiro filho, mas continuava deprimida e oprimida por ele.
“A relação com o meu marido continuava conflituosa. Se eu fosse boazinha concordando com tudo sem ter opinião própria estava tudo perfeito. Comecei a perder a minha identidade. A relação com os filhos era boa.
O conceito de amor era muito confuso. Quando penso no amor fraterno um amor de família, amor de mãe ou até mesmo no amor de esposa, percebo que eu tenho esse amor e dou esse amor; mas desejava um amor que me completasse, um amor mais livre”.
Continuava exercendo a profissão de costureira em casa. Neste período foi voluntária no serviço de Pediatria em um hospital.
Teve o quarto filho.

Cena 5:
Local (Vivências): perda da maternidade, desencontros com o marido.
Sentimentos: angústia, depressão e decepção.

8a consulta:
Sexto Setênio (35 – 42 anos):
Sentia um grande vazio que relacionava ao período pré-menstrual.
“As pessoas sempre me achavam alegre e solta, eu sou, porém às vezes esta situação não é verdade, aparento uma alegria que não existe. Tenho que manter uma aparência de forte e sou muito severa comigo.”
Voltou trabalhar fora no período de 1986 a 1989, mas não deu certo. O marido tinha aposentado nesta época e ficava em casa. Voltou a trabalhar em casa e estudar a noite, mas também parou. Atualmente trabalha em casa com a profissão de costureira e tem um espaço físico reservado para isto.
Relata ter perdido o controle da educação dos filhos.
Fez tentativas de conquistar liberdade, mas não conseguiu.

Cena 6 :
Local: (Vivências) busca da liberdade
Sentimentos: aprisionamento, não realização de si.

9a consulta:
Sétimo setênio (42 – 49 anos):
Aos quarenta dois anos sentiu um vazio maior e uma frustração muito grande. Não queria mais lutar, não acreditava mais em si e nos outros e entrou em um período de resignação.

Cena 7 :
Local: (Vivências) peça única, com duas faces refletidas
no espelho.
Sentimento: dualidade.

10a consulta:
Após fechamento do processo biográfico pedi a paciente para fazer uma representação de si na argila, de como gostaria de ser.
Ela fez um rosto e disse exclamando: “Parece com o meu marido!”

A partir deste momento paciente tomou consciência do seu processo, e da necessidade de buscar a sua individualidade.
Continuou o tratamento por algum tempo fazendo o Aconselhamento Biográfico.

CONCLUSÃO DO CASO CLÍNICO:

Considerações sobre a depressão segundo a Medicina Antroposófica:
Se entendermos o fígado como instrumento da vida anímica da índole, deve ser considerado que toda vivência triste e não elaborada pesa sobre o fígado, tornando tudo muito pesado e difícil.
Surgem distúrbios hepáticos como pressão e empachamento, gosto amargo, cólicas biliares.

Formas de depressão:
1- Depressão endógena: a alma não consegue vibrar com a vida e os processos hepáticos ficam estagnados.
2- Depressão reativa: o fígado reverbera a vivência anímica.
3- Depressão por esgotamento: desgaste do corpo físico levando ao desgaste etérico.
4- Depressão puerperal
5- Depressão climatério
6- Depressão involutiva: esclerose cerebral

Metamorfose da alma da sensação, intelecto-afetiva e da consciência:
Alma da sensação: metamorfose do corpo astral pelo querer através do Eu consciente no processo . A alma da sensação tem uma atuação no sistema urogenital.
Alma intelecto-afetiva: metamorfose do corpo etérico pelo sentir através do Eu consciente no processo .  A alma intelecto afetiva tem uma atuação no sistema hepato-biliar.
Alma da consciência: metamorfose do corpo físico pelo pensar através do  Eu consciente no processo . A alma da consciência tem uma atuação em nossa estruturação do  pensar.

Podemos observar nestas três peças de argila feita pela paciente a metamorfose da alma da sensação, que foi a maternidade, alma intelecto-afetiva, o coração oprimido e a alma da consciência, a necessidade de alçar novos vôos existenciais, mas não estar conseguindo devido a depressão que se encontrava na sua existência.

 Após a representação da sua imagem, vendo que era a imagem do marido, começou a trilhar caminhos de individuação na busca da sua própria existência, rompendo a simbiose e submissão existencial, que tinha com o marido.

Começou a fazer alguns movimentos de autonomia existencial, como sair com as amigas, visitar os parentes. Estes são pequenos passos, porém muito significativos na sua busca da individuação.

O processo biográfico da paciente continua e ela se mantém mais conscientes com os desafios que irá encontrar. Não está fazendo uso de medicamentos antidepressivos e não teve mais recaídas do quadro clínico apresentado no início da sua consulta.

 

Dra. Angélica Justo

 BIBLIOGRAFIA:

Tomar a Vida nas Próprias Mãos – Gudrun Burkhard – Ed. Antroposófica

Metodologia Antroposófica – Gudrun Burkhard – Ed. Antroposófica

Fases da Vida – Bernard Lievegoed – Ed. Antroposófica

Biografia e Doença – Dra. Angélica Justo e Dra. Gudrun Burkhard- Ed. Antroposófica.

O Conhecimento dos Mundos Superiores – Rudolf Steiner – Ed. Antroposófica

Verdade e Ciência – Rudolf Steiner – Ed. Antroposófica

A Obra Científica de Goethe – Rudolf Steiner – Ed. Antroposófica

Rudolf Steiner – Johannes Hemleben – Ed. Antroposófica

A Filosofia da Liberdade – Rudolf Steiner – Ed. Antroposófica

Enigmas da Filosofia – Rudolf Steiner – Sociedade Antroposófica

História da Filosofia – François Châtelet – Publicações Dom Quixote

Compêndio de Filosofia Clínica – Margarida Nichele Paulo – Imprensa Livre